No presente capítulo pretende-se fazer uma recognição da presença dos mitos clássicos na poesia de José Régio e analisar a forma como foram assimilados nela. Como autor de formação clássica, a incidência da cultura greco-romana adverte-se mais na produção poética da adolescência, quando assina as suas primeiras composições, publicadas n’O Democrático de Vila do Conde, com os pseudónimos de “Venus” e “Phebus”, ou quando, sob o nome de Jomar, publica n’O Record Charadístico do Porto, dedicando uns versos aos ritos dos pagãos, ao amor d’Hero e de Leandro e ao de Petrónio e Eunice. De resto, os temas e os símbolos prevalentes na poesia de José Régio têm sobretudo a ver com a religião e o imaginário bíblico ou com o folclore local da sua Vila do Conde ou do Portalegre que o recebeu. Contudo, é de realçar o desenvolvimento do mito de Narciso, ligado à tão debatida questão do umbilicalismo regiano, a que o poeta dedica um soneto na sua primeira recolha poética, Poemas de Deus e do Diabo, mas que volta a aparecer reiterado em outros versos da sua obra. O mesmo acontece com o mito de Ícaro, embora de forma menos insistente. Com efeito, não são essas as únicas referências aos mitos clássicos presentes na obra poética de José Régio, como se verá ao analisarmos também os versos esparsos e inacabados do autor de Vila do Conde. Lembre-se, finalmente, que o classicismo tem um lugar de relevo na reflexão crítica do diretor da Presença, sendo por ele integrado na sua interpretação original do modernismo. Para José Régio, não é só a Arte grega ou romana a serem clássicas: o artista contemporâneo deve descobrir o próprio classicismo que, por si só, não tem época e se realiza “Onde quer que o motivo inspirador e o meio de expressão se harmonizem numa realização de Beleza”. Por este mesmo motivo, Régio admite a compatibilidade entre classicismo e modernismo.

A (rara) assimilação dos mitos clássicos no classicismo modernista da poesia de José Régio / Martines, Enrico. - STAMPA. - Volume V(2021), pp. 251-267.

A (rara) assimilação dos mitos clássicos no classicismo modernista da poesia de José Régio

Enrico Martines
2021

Abstract

No presente capítulo pretende-se fazer uma recognição da presença dos mitos clássicos na poesia de José Régio e analisar a forma como foram assimilados nela. Como autor de formação clássica, a incidência da cultura greco-romana adverte-se mais na produção poética da adolescência, quando assina as suas primeiras composições, publicadas n’O Democrático de Vila do Conde, com os pseudónimos de “Venus” e “Phebus”, ou quando, sob o nome de Jomar, publica n’O Record Charadístico do Porto, dedicando uns versos aos ritos dos pagãos, ao amor d’Hero e de Leandro e ao de Petrónio e Eunice. De resto, os temas e os símbolos prevalentes na poesia de José Régio têm sobretudo a ver com a religião e o imaginário bíblico ou com o folclore local da sua Vila do Conde ou do Portalegre que o recebeu. Contudo, é de realçar o desenvolvimento do mito de Narciso, ligado à tão debatida questão do umbilicalismo regiano, a que o poeta dedica um soneto na sua primeira recolha poética, Poemas de Deus e do Diabo, mas que volta a aparecer reiterado em outros versos da sua obra. O mesmo acontece com o mito de Ícaro, embora de forma menos insistente. Com efeito, não são essas as únicas referências aos mitos clássicos presentes na obra poética de José Régio, como se verá ao analisarmos também os versos esparsos e inacabados do autor de Vila do Conde. Lembre-se, finalmente, que o classicismo tem um lugar de relevo na reflexão crítica do diretor da Presença, sendo por ele integrado na sua interpretação original do modernismo. Para José Régio, não é só a Arte grega ou romana a serem clássicas: o artista contemporâneo deve descobrir o próprio classicismo que, por si só, não tem época e se realiza “Onde quer que o motivo inspirador e o meio de expressão se harmonizem numa realização de Beleza”. Por este mesmo motivo, Régio admite a compatibilidade entre classicismo e modernismo.
978-972-9376-64-1
A (rara) assimilação dos mitos clássicos no classicismo modernista da poesia de José Régio / Martines, Enrico. - STAMPA. - Volume V(2021), pp. 251-267.
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